Unileão Homologação

Quem cuida de quem cuida de mim? Campanha reflete sobre a maternidade para além do Dia das Mães

A sobrecarga materna não é apenas uma percepção individual, mas um fenômeno social estruturado pela divisão desigual do trabalho de cuidado. Historicamente associado às mulheres, esse conjunto de tarefas, muitas vezes invisível e não remunerado, segue impactando diretamente a saúde física e mental de mães e pessoas que acumulam funções dentro e fora de casa.

Neste Dia das Mães, celebrado em 10 de maio, a Unileão propõe um deslocamento no olhar. Mais do que homenagens, a data convida para reflexão: quem cuida de quem cuida de mim? O convite é lançar atenção ao trabalho cotidiano das mães, avós, madrinhas, pais e outras figuras maternas.

Por trás de uma rotina que raramente desacelera, existe um trabalho silencioso, contínuo e, em grande parte, invisível. Organizar a casa, administrar compromissos, antecipar demandas e cuidar são tarefas que não terminam ao fim do expediente formal.

A rotina da procuradora institucional da Unileão, Suzana de Alencar, mãe de duas filhas, uma de 21 e outra de 28 anos, traduz essa realidade.

“Todos os dias são puxados. O meu dia começa muito cedo. Eu trabalho aqui oito horas, eu tenho um hotelzinho para cachorro, então quando eu chego em casa é um terceiro expediente. E tenho uma casa. E quando chego, começo a trabalhar mais ou menos até as 22h, quando eu venho buscar minha filha na faculdade. Todos os dias são assim, inclusive no final de semana”, conta.

O cansaço também faz parte da rotina. “Quando eu acordo, eu já acordo cansada. Sabe quando você dorme e tem a sensação de que no outro dia acordou disposta, descansada? Eu já acordo como se não estivesse dormindo”, diz.

Segundo ela, mesmo com o crescimento dos filhos, a responsabilidade com a casa e com a família permanece. “Eu acho que a rotina de casa, ela não é percebida. Porque, por mais que os filhos cresçam, a administração da casa continua sendo da mãe, a responsabilidade, a liderança da casa permanece sendo da mãe”.

O cuidado também desgasta

A experiência de Suzana reflete um padrão histórico que ainda organiza a dinâmica familiar. Segundo a professora do curso de Psicologia da Unileão, Emília Suitberta, essa lógica está relacionada à forma como o trabalho foi social e sexualmente divido ao longo do tempo.

“Os homens passaram a exercer um trabalho fora de casa, um trabalho produtivo, que tinha valor, que recebia salário, enquanto as mulheres passaram a ficar presas dentro de casa, com um trabalho que era essencialmente um trabalho reprodutivo, o trabalho de cuidado”, destaca. Ela avalia que esse trabalho, apesar de essencial, ainda não é reconhecido como tal.

Citando a filósofa Silvia Federici: “O que chamam de amor, nós chamamos de trabalho não remunerado”, a professora Emília acrescenta que todo esse cuidado necessário para a manutenção da vida e das estruturas domésticas é um trabalho, mas invisibilizado pela sociedade. Mesmo com a inserção das mulheres no mercado, a sobrecarga permanece.

“A mulher tem a necessidade de sair para o trabalho produtivo, mas o trabalho reprodutivo de cuidado permanece sob a sua responsabilidade. Muitas vezes, mesmo quando há divisão de tarefas, o planejamento do que deve ser feito continua sendo da mulher. Isso é carga mental”, explica.

Esse acúmulo impacta diretamente a saúde, de acordo com a professora. “Esse acúmulo de trabalho, com pouca possibilidade de descanso, tem levado muitas mulheres a, de fato, adoecerem, ao que a gente tem chamado de burnout parental”.

Quem cuida de quem cuida de mim?

Ao compartilhar sua experiência, Suzana, que abre esta reportagem, avalia: ser mãe é ver que as filhas se tornaram as mulheres que ela gostaria de ter sido. Ainda assim, evidencia as dificuldades da maternidade,

“Quando a gente é mãe, a gente vive as nossas dores, mas às vezes elas são colocadas de lado. As dores de mulher, de mulher que não realizou alguma coisa, que queria alguma coisa que não aconteceu. Eu sou mulher antes de ser mãe. Mas eu também sofro as dores que são de mãe. Então, são muitas dores para dar conta”, desabafa.

Segundo ela, a preocupação com os filhos não desaparece com o tempo. “A gente ainda observa os filhos, ainda tem que pensar se eles estão bem emocionalmente, fisicamente, mesmo sendo adultos”, pontua.

Suzana defende que uma forma concreta de devolver esse cuidado é sendo percebida. “Da pessoa te olhar e te perceber nas suas necessidades mesmo, não só físicas, mas afetivas”, diz.

Ampliar o olhar

Neste Dia das Mães, o convite da Unileão é ampliar o olhar para reconhecer, valorizar e, principalmente, compartilhar o cuidado. Afinal, por trás de toda mãe que cuida, existe alguém que também precisa ser cuidada.

Para a professora Emília, é muito importante não romantizar a data. Ela lembra que muitas vezes a chamada “mãe guerreira” é, na verdade, uma mãe sobrecarregada. E isso não significa mais ou menos amor pelo filho. “São sentimentos de ordens diferentes. A mãe pode amar muito o seu filho e ainda assim estar sobrecarregada com a maternidade”, reflete. Por isso, defende que é fundamental colocar luz sobre a importância de cuidar da saúde mental materna.