{"id":69664,"date":"2025-11-05T13:54:46","date_gmt":"2025-11-05T16:54:46","guid":{"rendered":"https:\/\/unileao.edu.br\/?p=69664"},"modified":"2025-11-05T13:54:46","modified_gmt":"2025-11-05T16:54:46","slug":"em-busca-de-um-conceito-de-cultura-e-sua-relacao-com-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/2025\/11\/05\/em-busca-de-um-conceito-de-cultura-e-sua-relacao-com-a-ciencia\/","title":{"rendered":"Em busca de um conceito de cultura e sua rela\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-69668\" src=\"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pedro-Adjedan_Unileao-300x224.png\" alt=\"\" width=\"232\" height=\"173\" srcset=\"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pedro-Adjedan_Unileao-300x224.png 300w, https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Pedro-Adjedan_Unileao.png 603w\" sizes=\"(max-width: 232px) 100vw, 232px\" \/><\/p>\n<p>O <strong>Dia Nacional da Cultura e da Ci\u00eancia<\/strong>, celebrado em 5 de novembro, constitui um convite \u00e0 reflex\u00e3o sobre a pr\u00f3pria natureza da universidade como espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de saberes. Pensar cultura e a ci\u00eancia \u00e9 pensar no emaranhado em que a pr\u00f3pria humanidade se produz, suas formas de express\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do mundo. No contexto universit\u00e1rio, essas duas dimens\u00f5es se entrela\u00e7am em uma mesma tarefa civilizat\u00f3ria que leva em conta a necessidade de se compreender o ser humano e suas obras em di\u00e1logo com a natureza, com a sociedade e com o conhecimento que ambos produzem. Nesse sentido, a universidade \u00e9 onde os fios da cultura e da ci\u00eancia se entrela\u00e7am, configurando-se como mediadora entre os saberes tradicionais e os saberes cient\u00edficos. Nela, o conhecimento \u00e9 gestado a partir do di\u00e1logo entre a raz\u00e3o e a sensibilidade, entre o m\u00e9todo e a experi\u00eancia, entre o saber t\u00e9cnico e o saber popular, num encontro que humaniza o pr\u00f3prio fazer cient\u00edfico e o inscreve na trama mais ampla da cultura.<\/p>\n<p><strong>Mas, afinal, o que \u00e9 Cultura?<\/strong><\/p>\n<p>O processo de evolu\u00e7\u00e3o da capacidade cognitiva do <em>homo sapiens<\/em> o fez se destacar das outras esp\u00e9cies em fun\u00e7\u00e3o daquilo que ele aprende, reproduz e produz. Uma s\u00e9rie de necessidades impulsionou uma habilidade extraordinariamente humana, dando-lhe a possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o tang\u00edvel e intang\u00edvel. Essa elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 oriunda das rela\u00e7\u00f5es que o ser humano estabelece com a sua pr\u00f3pria natureza, o que lhe \u00e9 intr\u00ednseco, com o meio ambiente, a natureza exterior e o que est\u00e1 nela, e com os outros indiv\u00edduos de todas as esp\u00e9cies que habitam o mundo. O resultado dessas rela\u00e7\u00f5es estruturais s\u00e3o as invencionices que podem ser tratadas como antropias, ou seja, como cultura. A palavra antropia, empregada aqui, expressa a energia criadora do humano, a capacidade criativa de produzir, reelaborar e ressignificar o mundo a partir das intera\u00e7\u00f5es que estabelece consigo, com os outros e com o ambiente.<\/p>\n<p>A cultura \u00e9 o desdobramento dos resultados dessas rela\u00e7\u00f5es que se materializam nas nossas formas de ser, de agir, de pensar e de sentir. \u00c9 por meio dela que conseguimos identificar as dimens\u00f5es que comp\u00f5em a condi\u00e7\u00e3o humana, na medida em que usamos o corpo para ressaltar essas dimens\u00f5es. Como \u00e9 o caso da dimens\u00e3o pol\u00edtica, que diz respeito \u00e0 forma como nos organizamos na sociedade e aos pap\u00e9is ou fun\u00e7\u00f5es sociais que ocupamos, como a quest\u00e3o do g\u00eanero; a dimens\u00e3o est\u00e9tica, que diz respeito \u00e0 forma como usamos o corpo para nos presentificarmos no mundo; ou mesmo a dimens\u00e3o espiritual, que se traduz por meio das maneiras como nos relacionamos com o que se considera divino. Essas dimens\u00f5es, al\u00e9m de representacionais, tornam-se tamb\u00e9m objeto de interesse da ci\u00eancia, que nelas reconhece as bases da experi\u00eancia humana, aproximando cultura e conhecimento cient\u00edfico na busca por compreender a condi\u00e7\u00e3o biopsiquicosocial da nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>S\u00e3o as express\u00f5es que se materializam no espa\u00e7o e no tempo, seja na forma de manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, tradicionais, eruditas ou nas produ\u00e7\u00f5es que seguem a l\u00f3gica da ind\u00fastria cultural, seja atrav\u00e9s dos modos de fazer, das t\u00e9cnicas e das viv\u00eancias de cada povo. O antrop\u00f3logo Clifford Geertz (2008) defende um conceito semi\u00f3tico de cultura, acreditando, como Max Weber, que \u201co homem \u00e9 um animal amarrado a teias de significados que ele pr\u00f3prio teceu\u201d. A cultura \u00e9, de fato, um sistema simb\u00f3lico e representacional, um rastro das humanidades deixado na espacialidade temporal e geogr\u00e1fica. Trata-se de uma elabora\u00e7\u00e3o sist\u00eamica determinante no processo de constru\u00e7\u00e3o das formas de ser, agir, pensar e sentir, resultante de suas conex\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia com o passado e o presente, com a natureza e com os outros sujeitos do mundo. Desse modo, as estruturas sociais de comunica\u00e7\u00e3o, como os mitos, as artes, a linguagem, a ci\u00eancia, a religi\u00e3o e os artefatos materiais e imateriais, tornam-se verdadeiros sistemas culturais, exprimindo aspectos da realidade f\u00edsica e socialmente constru\u00edda.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de cultura numa perspectiva antropol\u00f3gica \u00e9 universalista, podendo ser compreendida como tudo aquilo que o homem produz e que se relaciona com suas percep\u00e7\u00f5es, sentidos e significados apreendidos nas cotidianidades.<\/p>\n<p>O arcabou\u00e7o cultural constru\u00eddo pela humanidade ao longo dos tempos tem rela\u00e7\u00e3o direta com as identidades individuais e coletivas, que emergem de contextos hist\u00f3ricos e territoriais diversos. Existe, de fato, uma paisagem cultural, um espa\u00e7o simb\u00f3lico onde se manifestam os desdobramentos da cultura. Como afirmou Sauer (1983, p. 343 apud LIMAVERDE, 2015, p. 53), \u201ca cultura \u00e9 o agente; a \u00e1rea natural \u00e9 o meio; a paisagem cultural \u00e9 o resultado\u201d. No caso do Cariri cearense, por exemplo, a identidade cultural est\u00e1 profundamente vinculada \u00e0 ancestralidade dos povos ind\u00edgenas da etnia Kariri, respons\u00e1veis pela tessitura das representa\u00e7\u00f5es que conformou o espa\u00e7o geogr\u00e1fico da Chapada do Araripe. Seus tra\u00e7os persistem atrav\u00e9s do tempo, constituindo elementos transcendentais que moldam a multidimensionalidade dos sujeitos que habitaram e habitam o seu entorno.<\/p>\n<p>A cultura \u00e9 o resultado das configura\u00e7\u00f5es sociais, e estas, por sua vez, definem as formas subjetivas das individualidades, pois, por meio da socializa\u00e7\u00e3o, os c\u00f3digos sociais s\u00e3o interiorizados e reproduzidos que, inclusive, os simbolismos e as representa\u00e7\u00f5es sociais da cultura s\u00e3o frequentemente moldados por interesses homogeneizantes e pela padroniza\u00e7\u00e3o imposta pela ind\u00fastria cultural. O sistema capitalista vigente imp\u00f5e um modelo de consumo cultural que tende a neutralizar a diversidade, relegando ao esquecimento as express\u00f5es identit\u00e1rias locais e as epistemologias que emergem dos territ\u00f3rios. Como j\u00e1 advertiam Adorno e Horkheimer (1985), a ind\u00fastria cultural transforma a cria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica em mercadoria, diluindo a singularidade das express\u00f5es culturais sob a l\u00f3gica do mercado. Essa padroniza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e cognitiva atinge tamb\u00e9m os espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o, tornando urgente repensar o papel da educa\u00e7\u00e3o e da universidade como espa\u00e7os de resist\u00eancia cultural e de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica integrada \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e express\u00f5es culturais do territ\u00f3rio em que est\u00e1 situada.<\/p>\n<p>Segundo Stuart Hall (2006), a cultura n\u00e3o se constitui como heran\u00e7a gen\u00e9tica, mas como resultado das representa\u00e7\u00f5es sociais que identificam o homem como membro de uma estrutura societ\u00e1ria, de grupos e comunidades. Assim, a vida social \u00e9 uma express\u00e3o dos aspectos culturais, e o comportamento dos indiv\u00edduos resulta de um processo de aprendizagem formal ou informal que sedimenta c\u00f3digos sociais, estruturando identidades e subjetividades (BERGER; LUCKMANN, 2012). Essa aprendizagem cont\u00ednua revela a \u00edntima liga\u00e7\u00e3o entre cultura e ci\u00eancia, pois \u00e9 no exerc\u00edcio interpretativo da experi\u00eancia que o conhecimento se organiza, se refina e se partilha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todos esses aspectos e significados acerca da cultura, \u00e9 preciso compreender, tamb\u00e9m, que o modelo de cultura disseminado pela ind\u00fastria cultural, consolidado com a digitaliza\u00e7\u00e3o das sociedades e a ascens\u00e3o da chamada sociedade da selfie informacional, introduziu novos desafios \u00e0 constru\u00e7\u00e3o das subjetividades e favoreceu os deslocamentos identit\u00e1rios. As tecnologias, computadores, smartphones e redes digitais s\u00e3o incorporadas como ferramentas centrais nos sistemas culturais, mas, paradoxalmente, promovem a homogeneiza\u00e7\u00e3o e os distanciamentos de tra\u00e7os culturais que nos conectam com nossas origens. Nos tempos atuais, esse distanciamento \u00e9 particularmente perigoso, pois a perda de v\u00ednculos com o territ\u00f3rio e com a ancestralidade fragiliza nossa capacidade de compreender os colapsos civilizat\u00f3rios em curso, como o caos ambiental que emerge no Antropoceno e as crises de sentido que atravessam o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso alertar, ainda, que a juventude contempor\u00e2nea, em especial, \u00e9 fortemente influenciada por essa l\u00f3gica da conectividade global, que enfraquece o v\u00ednculo com as ra\u00edzes culturais e redefine as identidades sob o signo da universaliza\u00e7\u00e3o, do hiperconsumo, da informatiza\u00e7\u00e3o e do uso exacerbado de mecanismos digitais. Mesmo com resist\u00eancias e ressignifica\u00e7\u00f5es, as influ\u00eancias cibern\u00e9ticas e midi\u00e1ticas continuam a moldar as culturas contempor\u00e2neas, intensificando o processo de acultura\u00e7\u00e3o. Assim, os costumes, as pr\u00e1ticas e os saberes populares sofrem transforma\u00e7\u00f5es constantes, atravessados pelas for\u00e7as da globaliza\u00e7\u00e3o e pela midiatiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, a rela\u00e7\u00e3o entre cultura e ci\u00eancia assume um papel crucial. Ambas s\u00e3o express\u00f5es da criatividade humana e se constroem a partir do mesmo impulso de compreender, interpretar e transformar o mundo. A universidade, nesse sentido, tem a responsabilidade \u00e9tica e pol\u00edtica de articular esses dois campos, transformando o conhecimento em a\u00e7\u00e3o social e promovendo a circula\u00e7\u00e3o de saberes entre os espa\u00e7os acad\u00eamicos e as comunidades. Ao atuar como formadora e mediadora entre cultura e ci\u00eancia, ela faz do ensino, da pesquisa e da extens\u00e3o processos de articula\u00e7\u00e3o da interculturalidade, em que o saber acad\u00eamico dialoga com a sabedoria popular, o conhecimento t\u00e9cnico com o emp\u00edrico, e a racionalidade com po\u00e9tica da vida cotidiana.<\/p>\n<p>Hoje, fala-se cada vez mais em uma <strong>ci\u00eancia cidad\u00e3<\/strong>, um paradigma que amplia o alcance da ci\u00eancia ao incorporar a participa\u00e7\u00e3o social na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Trata-se de uma ci\u00eancia colaborativa, que reconhece e valoriza os saberes tradicionais, as experi\u00eancias locais e as epistemologias que se manifestam nos contextos culturais diversos. A ci\u00eancia cidad\u00e3 rompe com o paradigma positivista da neutralidade e da hierarquia do saber, reconhecendo que todo conhecimento \u00e9 contextual e conjuntural. Assim, a ci\u00eancia cidad\u00e3 n\u00e3o apenas amplia o horizonte da pesquisa, mas redefine o pr\u00f3prio papel da universidade, convocando-a a ser um espa\u00e7o onde os saberes s\u00e3o constru\u00eddos de forma m\u00fatua.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia cidad\u00e3 aproxima a universidade da sociedade, reafirmando a import\u00e2ncia da cultura como meio de legitima\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o do saber. Nela, o conhecimento cient\u00edfico deixa de ser monop\u00f3lio dos laborat\u00f3rios ou mero objeto de pesquisa e passa a ser imbricado \u00e0s comunidades, em di\u00e1logo efetivo com o territ\u00f3rio. Ci\u00eancia e cultura revelam-se, portanto, n\u00e3o apenas como formas de produzir conhecimento, mas como caminhos convergentes para a emancipa\u00e7\u00e3o humana, a valoriza\u00e7\u00e3o das pluralidades e a constru\u00e7\u00e3o de um futuro em que a vida coletiva poderia ter uma maior valora\u00e7\u00e3o. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, ambas expressam o mesmo gesto humano: o de significar o mundo para nele permanecer com dignidade, consci\u00eancia e esperan\u00e7a. Se a ci\u00eancia \u00e9 o objetivo concreto, a cultura \u00e9 meio para alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Autor:\u00a0Prof. Ms. Pedro Adjedan David de Sousa<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor Pedro Adjedan escreve sobre o Dia Nacional da Cultura e da Ci\u00eancia, celebrado neste 5 de novembro, destacando a universidade como espa\u00e7o de saber e resist\u00eancia. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":69668,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[2726],"editoria":[],"class_list":["post-69664","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-institucional","tag-dia-nacional-da-ciencia-e-da-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69664","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69664"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69664\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69664"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69664"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69664"},{"taxonomy":"editoria","embeddable":true,"href":"https:\/\/hml.unileao.edu.br\/wp-json\/wp\/v2\/editoria?post=69664"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}